A Seleção Brasileira de futebol precisa de Neymar na Copa 2026
A crise de compromisso que desafia uma geração, expõe, na convocação do camisa dez, o conflito entre disciplina, profissionalismo, protagonismo e competitividade
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- Vicente Almeida
- Esportes
- 19 Maio 2026 - 04:00

Entre a conquista do Tri, no pulsante estádio Azteca, no México, em 1970, e a bola que Roberto Baggio mandou para a lua naquela tarde desumana de calor desértico no estádio Rose Bowl, nos Estados Unidos, em 1994, foram vinte e quatro anos sem conquistar o mundo. O maior jejum desde que Hilderaldo Luís Bellini fez a Jules Rimet refletir em suas asas, os pálidos raios de sol da tarde fria de Estocolmo.
Quando Carlo Ancelotti aceitou treinar um combalido selecionado brasileiro, sabia que teria pela frente um árduo trabalho de reconstrução, após a terra arrasada deixada por Dorival Junior e Fernando Diniz. Se tudo der certo e o time comandado por “Carletto” vencer o campeonato disputado no continente norte americano, terá igualado o maior período sem títulos, ocorrido entre 1970 e1994, desde que entrou para o seleto grupo dos campeões e caso fracasse, será o maior jejum de todos os tempos, igualando os primórdios da disputa que aconteceu entre a criação do torneio, em 1930, e o primeiro título, em 1958.
Vivemos a era da informação. O mundo se transformou e nunca foi tão rápido ter acesso a dados, notícias e conhecimentos gerais que, hoje, brotam na palma da mão. Curiosamente, vivemos o momento de maior desinformação dos últimos tempos, pois o conhecimento, o estudo, o merecimento, o esforço, a eficiência, ficaram em segundo plano.
Atualmente, as pessoas vivem mergulhadas em suas próprias bolhas e desenvolveram um estranho orgulho do desconhecimento. Comentam coisas que não sabem, falam com propriedade sobre assuntos que não conhecem e clamam desesperadamente pala convocação de um jogador que não joga futebol profissional faz cinco, seis anos, especialmente, em detrimento de um dos artilheiros do maior e mais disputado campeonato de futebol do mundo.
Como se não bastasse o exército se influenciadores que contaminam as ruas, as redes e as vontades da população, o clamor pelo camisa 10 do Santos foi constante até mesmo dentro do grupo de jogadores da própria seleção Canarinho. Quem se acostumou com jogadores que chamavam a responsabilidade para si, como Romário, Rivaldo e Ronaldo, nunca vai achar normal que atletas que almejam um título mundial clamem pela convocação de um ex-atleta em atividade.
Alguns dizem que é para abrir mão do protagonismo, da responsabilidade, uma coisa inimaginável para aqueles que se acostumaram com Zicos, Romários e Ronaldos. Talvez isso ajude a explicar o péssimo momento que o futebol Brasileiro de seleções atravessa.
Mas o que isso tem a ver com Neymar? Sim, a Seleção Brasileira precisava ter o "craque” na Copa de 2026. Ele é o maior expoente da displicência que acomete, com orgulho, boa parte da geração atual que preza muito mais pelas curtidas do que pela técnica, que prefere o engajamento à disciplina, a selfie ao resultado. Uma geração que cancelaria Muricy Ramalho por prezar pelo trabalho.
Curiosamente, algumas das pessoas que, na tarde desta segunda, celebraram a convocação de Neymar e, em alguns casos, de maneira efusiva e até violenta, são os mesmos que vivem reclamando que seus funcionários não entregam resultados, que não são comprometidos com o ambiente de trabalho e que não assumem responsabilidades.
Certamente, Neymar é um dos maiores talentos do futebol brasileiro desde que a geração do Ronaldos encantou o planeta. Porém, seu maior mérito é saber, como poucos, navegar nas ondas da desinformação. Seu exército de "parças" passa por todas as esferas de influenciadores digitais que acometem público de todas as idades, desde as mais tenras. Em um país que vive um eterno Fla-Flu, é no mínimo curioso, perceber a unanimidade que o jogador do Santos se tornou. Nem Romário, que já era campeão do mundo, teve tanto apoio e desespero por sua convocação, quando ficou de fora da lista do grupo que conquistou o penta, em 2002. Romário, acabou de fora. O “menino” Ney, carimbou o passaporte verde e amarelo.
A convocação de Neymar é uma premiação para as pessoas que acham que o resultado pode vir a qualquer moimento e que basta fazer o mínimo possível para isso. Porém, se tem um lado bom nessa história é que poderemos ver se mesmo após superar a primeira barreira, a da convocação, o ídolo de uma geração fará jus à oportunidade que tem nas mãos, ou nos pés, e irá se comportar de maneira minimamente profissional e se esforçar para buscar o mínimo de competitividade.
Será que vai ser titular? Será que vai ser reserva? Será que a concentração vai ser fechada, um ambiente profissional, ou será que veremos a segunda parte do filme que assistimos em Weggis, na Suíça, às vésperas da Copa de 2006? Não dá para saber, são perguntas que começarão a ser respondidas às 19h00, do dia 13 de junho, no MetLife Stadium, em Nova Jersey, onde o Brasil estreia diante do Marrocos, adversário mais complicado da primeira fase.
O que podemos adiantar é que, diante do inacreditável evento de convocação que aconteceu no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, o cartão de visitas do midiático e bonachão técnico Carlo Ancelotti no comando de compromissos oficiais da Seleção Brasileira foi péssimo. Se ficou com alguma dúvida, basta fazer uma rápida pesquisa para saber como foi a convocação da seleção da França, divulgada nas redes sociais, no último dia 18, ou da seleção da Argentina, campeã do mundo em 2022. É, a Seleção Brasileira precisava de Neymar na Copa de 2026 como um exemplo daquilo que não deve ser feito. O ex-jogador em atividade pode até fazer o gol do título, mas a derrota do exemplo da busca pela eficiência é inevitável. Realmente, todo dia, um sete a um diferente.































